domingo, 19 de agosto de 2018

Coluna Claquete - Filme recomendado: "Jackie Brown"


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Newton Ramalho - colunaclaquete@mail.com

    


Filme Recomendado: “Jackie Brown”


“Falem mal, mas falem de mim”. Esta famosa frase, atribuída a um falecido político baiano, pode não ser a filosofia de vida de Quentin Tarantino, mas é a sua realidade. Seria injusto, porém, dizer que só se fala mal dele. Ao contrário, seus filmes são amados ou odiados com a mesma paixão, mas, sem nenhuma unanimidade. Talvez, por conseguir despertar as emoções dos espectadores, é que o polêmico mix de diretor, produtor, escritor e ator, seja uma estrela, com brilho próprio, na constelação de Hollywood. Fugindo um pouco à regra, não costumo me apegar a um diretor, e sim, cada obra individualmente. Por ter uma percepção diferente para cada trabalho dele, considero "Jackie Brown" o melhor filme de Tarantino. Fãs de "Pulp fiction", deixem para atirar as pedras em alguém que valha à pena.
     Jackie Brown (Pam Grier) é uma negra de meia-idade que trabalha como aeromoça numa empresa aérea mexicana de baixo custo. Para ganhar uns trocados a mais, Jackie faz às vezes de pombo-correio para um pequeno traficante de armas, Ordell Robbie (Samuel L. Jackson), trazendo dinheiro de uma conta-fantasma no México. Numa destas vezes, é surpreendida pela polícia carregando cinqüenta mil dólares. Como nas terras do Tio Trump é ilegal trazer mais de dez mil dólares sem declarar na alfândega, nossa heroína foi parar na cadeia.
Além de Jackie, Ordell tinha problemas com outro funcionário seu, Beaumont Livingston (Chris Tucker). Jovem e irresponsável, Beaumont fora preso dirigindo embriagado, com uma arma ilegal no carro. Juntando isso aos seus antecedentes, pegaria certamente dez anos de prisão, dos quais só se safaria se delatasse seu patrão. Ordell somou dois mais dois e logo despachou Beaumont dessa para melhor.
Para tirar Jackie da cadeia, Ordell usa os serviços de um agente de fiança, uma espécie de despachante legal, que se encarrega de tomar conta de pessoas em liberdade condicional. O agente é Max Cherry (Robert Foster), um cinqüentão prestes a aposentar-se, que é tomado por uma imediata e estranha atração por Jackie.
Ordell continua tentando manter os negócios em ordem, e agora conta com a ajuda de um velho companheiro de prisão, Louis Gara (Robert De Niro). O novo agregado ainda ressente-se de um longo período atrás das grades e a visão da jovem namorada de Ordell não ajuda muito sua readaptação. Melanie (Bridget Fonda), jovem e linda, só tem dois prazeres na vida: assistir TV e drogar-se.
Enquanto continua sendo pressionada por policiais federais para entregar Ordell, Jackie sofre veladas ameaças do próprio chefe. Sem alternativa viável, ela resolve executar um plano mirabolante para enganar todo mundo e fugir com a grana do traficante.
O filme é um belo exercício de suspense, muito presente em filmes policiais de todos os tempos. Alguns aspectos, porém, tornam "Jackie Brown" acima da média. O mais importante foi a escolha do elenco, que sustenta toda a trama.
As figuras mais conhecidas, Samuel Lee Jackson, Robert de Niro, Bridget Fonda, Michael Keaton e Chris Tucker ficaram com os papéis secundários. Jackson encarna o traficante com rabo-de-cavalo, barbicha e sotaque de gueto. Niro, com cara de quem apareceu de última hora, faz o ex-presidiário. Keaton é o agente federal que prende Jackie. Bridget, linda e talentosa, está ótima como a surfista drogada enquanto Chris Tucker cumpre seu eterno papel de grilo falante sumindo logo no início do filme.
Os papéis principais ficam mesmo com Pam Grier e Robert Foster, ótimos atores que durante três décadas só fizeram papéis secundários no cinema e na TV. O mais notável papel de Foster foi o seu filme de estréia, “Os Pecados de Todos Nós” ("Reflexions in a Golden Eye", EUA, 1967), com Elizabeth Taylor e Richard Burton. 
Se até agora os negros ainda tem dificuldades nas premiações do Oscar, pelo menos Pam mereceu a indicação para o Globo de Ouro, por sua atuação como Jackie. Também, por este filme, Foster foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante e Jackson ganhou o Urso de Prata de Melhor Ator no Festival de Berlim.
Outro artifício interessante, que Tarantino já havia utilizado em "Pulp Fiction" é a condução da narrativa. Na maioria das vezes, a história segue uma narrativa linear, com fatos simultâneos contados em série (lembram do "enquanto isso, na Sala da Justiça...?). O diretor subverte essa lógica, num momento de suspense, quando Ordell vai pressionar Jackie, e logo mostra uma sequencia de fatos em um shopping center. O mesmo intervalo de tempo é mostrado três vezes, sempre de um ponto de vista diferente, resultando num conjunto muito original.
Um terceiro aspecto curioso deste filme é a maneira como a violência é apresentada. Diferente do jeito explícito e até banal de "Pulp Fiction" e outros filmes de Tarantino, em "Jackie Brown" tudo é mais escondido, submerso. A seqüência da morte do personagem de Chris Tucker é o melhor exemplo isso. Tudo é mostrado à distância, apenas confirmando o que o espectador já antecipa. Todas as ações e reações são inesperadas, fugindo ao lugar comum dos filmes policiais tipo "bateu-levou".
Fugindo ao padrão onde todos são jovens e perfeitos, como nos comerciais de margarina, Tarantino mostra um belo caso de amor entre pessoas maduras, que ainda acalentam fantasias românticas - e tem todo direito de fazê-lo. Também são mostradas as barreiras, muitas vezes intransponíveis, que as pessoas constroem ao redor de si mesmas e dificultam a realização de seus sonhos e desejos mais íntimos. Recomendo.

Coluna Claquete - Especial: Humor à francesa


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Risada com biquinho


Fazer humor não é fácil, até porque, o que é engraçado para alguns, não o é para outros. Enquanto muitos se dobravam de rir com “Um Parto de Viagem”, eu detestei cada minuto que passei até abandonar a sala do cinema. Mas, ao fazer uma retrospectiva de algumas comédias francesas, pude comprovar como as coisas são diferentes do outro lado do Atlântico.
Embora não seja um especialista em comédias, francesas, americanas ou brasileiras, tenho uma boa ideia do que não gosto, os besteiróis americanos, e as cópias de programas globais que vão para as telas de cinema. Portanto, foi uma grata surpresa ao escolher três comédias francesas ao acaso, e gostar de todas.
Minha viagem ao mundo do humor francês começou com “Le Grand Bazar” (FRA, 1973), algo como “A Grande Loja”, com o grupo humorista Les Charlots. Curiosamente, a origem deles foi como grupo musical, em 1966, com um estilo cômico e de paródia, evoluindo dos palcos para as telas do cinema.
Formando inicialmente por  Gérard Rinaldi, Gérard Filippelli, Jean Sarrus, e Jean-Guy Fechner, o grupo alcançou um grande sucesso nos cinemas nos anos 1970, com filmes como “La Grande Java”, “Les Bidasses en Folie”, “Les Fous Du Stade”, “Les Bidasses s’en Vont en Guerre” e “Le Grand Bazar”. Seu humor era cênico, quase ingênuo, lembrando muito os Trapalhões no início da carreira.
Em “Le Grand Bazar” o grupo quer ajudar um amigo cuja mercearia é ameaçada com a chegada de um grande supermercado ao bairro. Os quatro amigos usam muita criatividade para trazer os clientes para a loja do amigo, enquanto o gerente do supermercado toma a batalha como coisa pessoal. O filme é muito divertido, com poucos diálogos e muitas piadas bizarras, mas sem o mau gosto de seus similares americanos.
O segundo filme de minha lista é “A Verdadeira Vida dos Professores” (“La vrai vie des profs”, FRA, 2013). O filme foi dirigido por Emmanuel Klotz e Albert Pereira-Lazaro, dois profissionais do mundo do cinema infantil.
A história é protagonizada por cinco crianças de Marselha, Albert (Emir Seghir), Jean-Mohamed (Sami Bouzid), Juju (Maëva Arnoux), Mousse (Enzo Vallejos-Celotto) e Sissi (Victoire Poupon). Colegas de colégio, eles são os responsáveis pelo jornal interno, o que parece ser uma tarefa bem tediosa.
Depois que descobrem que uma das mestres mais conservadoras namorava um motoqueiro, Albert convence os outros a fazer um blog sobre a verdadeira vida dos professores. Para isso eles chegam a revirar o lixo, invadir escritórios e até bisbilhotar pela janela, buscando situações íntimas.
O blog faz um tremendo sucesso, mas a coisa passa dos limites, ocasionando a demissão da professora de francês Madame Oufkir (Audrey Fleurot), quando é revelado que ela tinha um caso com o diretor (Lucien Jean-Baptiste). Ao mesmo tempo, os meninos passam pelos problemas comuns do início da adolescência, o que prejudica a relação do grupo.
Embora seja um filme voltado para o público infanto-juvenil, o seu humor leve torna o resultado final muito agradável para todos os públicos. Além da história simples e divertida, também são mostrados paisagens diferentes de Marselha, e o seu multiculturalismo, algo bem estranho para a maioria dos brasileiros.
O terceiro filme desta minha seleção é “Fim de Semana à Beira-Mar” (“Ni à vendre ni à louer”, FRA, 2011), dirigido por Pascal Rabaté. Uma curiosidade sobre este filme é que ele ficou muito tempo no meu estoque de coisas para ver, pois faltava a legenda. Uma noite, resolvi dar uma olhada no filme, e quando percebi, já tinha assistido quase todo. A legenda? Não precisa, pois o filme praticamente não tem diálogos.
O título original não diz muito, mas realmente o filme trata de um fim de semana na praia, envolvendo campistas e hóspedes de um hotel à beira-mar. O filme é no melhor estilo Jaques Tati, com quase nenhum diálogo e muitas cenas non sense que tornam o filme repleto de um humor sutil e bem divertido.
O elenco é composto por atores muito conhecidos do cinema francês, como Jacques Gamblin, François Damiens, François Morel, Dominique Pinon, Stéphanie Pillonca, Catherine Hosmalin, e muitos outros. Um destaque é a portuguesa Maria de Medeiros, que ficou conhecida mundialmente ao viver a escritora Anaïs Nin em “Henry & June: Delírios Eróticos”.
As gags são variadas entrecruzando todos os personagens. Um homem persegue uma pipa fugitiva e é ajudado por uma mulher pois o colar dela foi junto. Entre os lugares que deverão percorrer está um campo de nudismo.
Um executivo tem a carteira roubada por dois malandros, e ainda fica algemado na cama por uma dominatrix, que leva o carro dele e ainda joga suas roupas no lixo. Um casal de hippies viaja com dois cachorros, enquanto um casal plus size se diverte comodamente em uma minúscula cabana, que ainda abriga os vizinhos campistas durante uma forte tempestade.
Num dos papeis mais contidos de sua carreira, Dominique Pinon está bem à vontade neste filme louco, depois de ter participado de produções como “Delicatessen”, “ O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, “Micmacs – Um Plano Complicado”, “Ladrão de Sonhos” e “Alien, a Ressurreição”.
Nesta pequena amostragem da comédia francesa, o espectador pode apreciar um tipo diferente de humor, bem diferente de seus congêneres americanos, e, por incrível que pareça, de imitações destes filmes feitos na própria França!

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Coluna Claquete - Filme Recomendado: “As Virgens Suicidas”



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Filme Recomendado: “As Virgens Suicidas”

As virgens de Sofia

Ao longo de minha vida de cinéfilo, descobri que um filme pode ser - e normalmente o é - classificado pelo gosto do espectador. Apesar de ser uma visão pessoal, existem os filmes que adoramos, os que detestamos e aqueles em que ficamos na dúvida sobre o que sentir. Talvez não seja por acaso que geralmente sejam estes últimos os que mais suscitam reflexões sobre o seu conteúdo. É neste grupo que coloco “As Virgens Suicidas” (“The Virgin Suicides”, EUA, 1999), filme de estreia da diretora Sofia Coppola, baseado no romance homônimo de Jeffrey Eugenides. É um filme que trata de conservadorismo, repressão, honra, desilusão e morte, entre outras coisas.
O enredo não tem nada de anormal, a não ser pela excepcionalidade da tragédia ali retratada: o suicídio coletivo de cinco garotas de uma mesma família, entre treze e dezessete anos. Os fatos são mostrados através da ótica confusa dos adolescentes vizinhos das garotas. Como são eles os narradores, desde o começo é admitido que não existe explicação plausível. Na verdade, as razões para a tragédia são expostas para que o espectador firme o seu próprio julgamento.
A narração inicia-se com a tentativa de suicídio da caçula das cinco irmãs Fontaine. A menina corta os pulsos no banheiro e é salva por conta do voyeurismo de um dos garotos da vizinhança. Ao ser questionada pelo terapeuta, ela responde que nenhum homem jamais saberá o que é ser uma mulher aos treze anos. Este é o modo com que a diretora, também responsável pelo roteiro, vai abrindo o pequeno mundo que descreve.
A família Lisbon é composta pelo pai (James Woods), um alienado professor de matemática, a mãe (Kathleen Turner), uma católica extremada, e as cinco filhas mulheres. As meninas jamais haviam saído com rapazes, mesmo as mais velhas. Por recomendação do terapeuta da caçula, a família resolve fazer uma festinha em casa, que culmina com uma nova tentativa de suicídio da garota, desta vez bem sucedida.
Após a tragédia, a família vai aos poucos voltando à normalidade. O gostosão da escola, Trip Fontaine (Josh Harnett), acostumado a ser bajulado por todas as mulheres, tem os brios feridos ao ser ignorado pela linda Lux Lisbon (Kirsten Dunst). Decidido a conquistá-la, Trip usa todo o seu charme com a família, e consegue levar Lux para o baile do colégio. Para isso, reuniu mais três colegas para acompanhar as outras irmãs.
No melhor estilo cafajeste, Trip seduz Lux e abandona-a em plena festa, desencadeando a fúria da colérica mamãe Lisbon. Transformando a casa numa prisão, a mãe impede as filhas até de frequentar a escola, obrigando Lux a destruir todos os discos de rock e acelerando o processo de autodestruição da família.
Numa tentativa de ajudar as meninas, os garotos da vizinhança estabelecem pelo telefone um diálogo musical de uma beleza enternecedora (aliás, a trilha sonora do filme, do grupo francês Air, é magnífica). Lux transforma-se radicalmente. De menininha inocente vira a vadia do bairro, transando até em cima do telhado. A desestruturação das garotas culmina com a morte coletiva de todas. Os pais afirmam não ter idéia dos motivos que as levaram a isso e acreditam piamente que não tem nenhuma culpa.
“As Virgens Suicidas” chama a atenção para um problema que faz parte da realidade americana: o suicídio juvenil. Essa tragédia também é comum nas culturas orientais, em particular na japonesa. Embora ambas apresentem a mesma perda inútil de vidas, no Japão o suicídio é considerado uma solução digna para manter a honra do indivíduo e da família.
Já no Ocidente, é simplesmente o fundo do poço, o resultado da desesperança de uma sociedade que não tem um futuro a oferecer aos seus jovens. Para se ter uma idéia da tragédia americana, estatísticas recentes mostram que um em cada cinco jovens já tentou suicídio. Qual será o futuro de uma nação com tal sustentação? Segundo a Organização Mundial de Saúde, 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos. E para cada caso fatal há pelo menos outras 20 tentativas fracassadas.
Além da excelente reconstituição de época, o filme sustenta-se nas quatro figuras centrais do elenco. James Woods assume com perfeição o pai demente, que vive imerso entre equações matemáticas, falando com as flores e ignorando as filhas, deixando-as sob a responsabilidade da mãe. Esta é vivida por uma Kathleen Turner quase irreconhecível, gorda, feia e irascível, que nada lembra a sexy garota de “Corpos Ardentes” e “Tudo Por Uma Esmeralda”. 
O casal jovem também está irrepreensível. Kirsten Dunst, a menininha de "Entrevista Com o Vampiro" constrói uma personagem que mescla a mais pura inocência à uma sensualidade à flor da pele. Josh Hartnett recria o garotão mau-caráter que leva a família Lisbon à destruição.
Em sua estréia na direção, Sofia contou com a assessoria do paizão, mas surpreendeu a indústria, ao escrever o roteiro, e convencer os produtores a fazer o filme. Se levarmos em conta o pouco apelo comercial do filme, vê-se que foi um grande feito.
A edição latina em DVD está bem feita, com formato de tela widescreen, áudio em inglês Dolby Digital 5.1, português e espanhol, legendas em português, inglês e espanhol e diversos extras. Além do trailer de cinema, há galeria de fotos, um videoclipe e um pequeno documentário legendado em português, com os bastidores da produção. 
O filme “As Virgens Suicidas” foge do padrão comercial a que estamos acostumados, principalmente as populares comédias de adolescente. É um filme bonito mas melancólico, onde já se sabe de antemão o destino das personagens. Contudo, é um belo exercício de cinema e que desperta questionamentos sobre como martirizamos as pessoas que mais amamos. Assista com o coração aberto.

Título Original: “The Virgin Suicides”