sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Coluna Claquete - Filme Recomendado: “As Virgens Suicidas”



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Newton Ramalho - colunaclaquete@gmail.com


Filme Recomendado: “As Virgens Suicidas”

As virgens de Sofia

Ao longo de minha vida de cinéfilo, descobri que um filme pode ser - e normalmente o é - classificado pelo gosto do espectador. Apesar de ser uma visão pessoal, existem os filmes que adoramos, os que detestamos e aqueles em que ficamos na dúvida sobre o que sentir. Talvez não seja por acaso que geralmente sejam estes últimos os que mais suscitam reflexões sobre o seu conteúdo. É neste grupo que coloco “As Virgens Suicidas” (“The Virgin Suicides”, EUA, 1999), filme de estreia da diretora Sofia Coppola, baseado no romance homônimo de Jeffrey Eugenides. É um filme que trata de conservadorismo, repressão, honra, desilusão e morte, entre outras coisas.
O enredo não tem nada de anormal, a não ser pela excepcionalidade da tragédia ali retratada: o suicídio coletivo de cinco garotas de uma mesma família, entre treze e dezessete anos. Os fatos são mostrados através da ótica confusa dos adolescentes vizinhos das garotas. Como são eles os narradores, desde o começo é admitido que não existe explicação plausível. Na verdade, as razões para a tragédia são expostas para que o espectador firme o seu próprio julgamento.
A narração inicia-se com a tentativa de suicídio da caçula das cinco irmãs Fontaine. A menina corta os pulsos no banheiro e é salva por conta do voyeurismo de um dos garotos da vizinhança. Ao ser questionada pelo terapeuta, ela responde que nenhum homem jamais saberá o que é ser uma mulher aos treze anos. Este é o modo com que a diretora, também responsável pelo roteiro, vai abrindo o pequeno mundo que descreve.
A família Lisbon é composta pelo pai (James Woods), um alienado professor de matemática, a mãe (Kathleen Turner), uma católica extremada, e as cinco filhas mulheres. As meninas jamais haviam saído com rapazes, mesmo as mais velhas. Por recomendação do terapeuta da caçula, a família resolve fazer uma festinha em casa, que culmina com uma nova tentativa de suicídio da garota, desta vez bem sucedida.
Após a tragédia, a família vai aos poucos voltando à normalidade. O gostosão da escola, Trip Fontaine (Josh Harnett), acostumado a ser bajulado por todas as mulheres, tem os brios feridos ao ser ignorado pela linda Lux Lisbon (Kirsten Dunst). Decidido a conquistá-la, Trip usa todo o seu charme com a família, e consegue levar Lux para o baile do colégio. Para isso, reuniu mais três colegas para acompanhar as outras irmãs.
No melhor estilo cafajeste, Trip seduz Lux e abandona-a em plena festa, desencadeando a fúria da colérica mamãe Lisbon. Transformando a casa numa prisão, a mãe impede as filhas até de frequentar a escola, obrigando Lux a destruir todos os discos de rock e acelerando o processo de autodestruição da família.
Numa tentativa de ajudar as meninas, os garotos da vizinhança estabelecem pelo telefone um diálogo musical de uma beleza enternecedora (aliás, a trilha sonora do filme, do grupo francês Air, é magnífica). Lux transforma-se radicalmente. De menininha inocente vira a vadia do bairro, transando até em cima do telhado. A desestruturação das garotas culmina com a morte coletiva de todas. Os pais afirmam não ter idéia dos motivos que as levaram a isso e acreditam piamente que não tem nenhuma culpa.
“As Virgens Suicidas” chama a atenção para um problema que faz parte da realidade americana: o suicídio juvenil. Essa tragédia também é comum nas culturas orientais, em particular na japonesa. Embora ambas apresentem a mesma perda inútil de vidas, no Japão o suicídio é considerado uma solução digna para manter a honra do indivíduo e da família.
Já no Ocidente, é simplesmente o fundo do poço, o resultado da desesperança de uma sociedade que não tem um futuro a oferecer aos seus jovens. Para se ter uma idéia da tragédia americana, estatísticas recentes mostram que um em cada cinco jovens já tentou suicídio. Qual será o futuro de uma nação com tal sustentação? Segundo a Organização Mundial de Saúde, 800 mil pessoas cometem suicídio todos os anos. E para cada caso fatal há pelo menos outras 20 tentativas fracassadas.
Além da excelente reconstituição de época, o filme sustenta-se nas quatro figuras centrais do elenco. James Woods assume com perfeição o pai demente, que vive imerso entre equações matemáticas, falando com as flores e ignorando as filhas, deixando-as sob a responsabilidade da mãe. Esta é vivida por uma Kathleen Turner quase irreconhecível, gorda, feia e irascível, que nada lembra a sexy garota de “Corpos Ardentes” e “Tudo Por Uma Esmeralda”. 
O casal jovem também está irrepreensível. Kirsten Dunst, a menininha de "Entrevista Com o Vampiro" constrói uma personagem que mescla a mais pura inocência à uma sensualidade à flor da pele. Josh Hartnett recria o garotão mau-caráter que leva a família Lisbon à destruição.
Em sua estréia na direção, Sofia contou com a assessoria do paizão, mas surpreendeu a indústria, ao escrever o roteiro, e convencer os produtores a fazer o filme. Se levarmos em conta o pouco apelo comercial do filme, vê-se que foi um grande feito.
A edição latina em DVD está bem feita, com formato de tela widescreen, áudio em inglês Dolby Digital 5.1, português e espanhol, legendas em português, inglês e espanhol e diversos extras. Além do trailer de cinema, há galeria de fotos, um videoclipe e um pequeno documentário legendado em português, com os bastidores da produção. 
O filme “As Virgens Suicidas” foge do padrão comercial a que estamos acostumados, principalmente as populares comédias de adolescente. É um filme bonito mas melancólico, onde já se sabe de antemão o destino das personagens. Contudo, é um belo exercício de cinema e que desperta questionamentos sobre como martirizamos as pessoas que mais amamos. Assista com o coração aberto.

Título Original: “The Virgin Suicides”

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Coluna Claquete - Filme da Semana: “Chappaquiddick”



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Newton Ramalho - colunaclaquete@gmail.com


Filme da Semana: “Chappaquiddick”

A sombra podre do leão


Quando se trata de políticos patéticos, mal intencionados e corruptos, acreditamos que também neste campo somos campeões mundiais. Mas, a verdade é que parece ser um pré-requisito para a carreira política ter alguma distorção de caráter ou personalidade. Um exemplo disso é mostrado no filme “Chappaquiddick”, dirigido por John Curran.
É difícil que exista alguém no mundo que não tenha ouvido falar do presidente John Kennedy e seu trágico fim, assassinado em pleno mandato. Nem todos, porém, sabem sobre seu irmão, Bob, também assassinado enquanto fazia campanha para a presidência. Menos pessoas ainda ouviram falar no irmão mais velho, Joseph Jr, que vinha sendo preparado pelo pai para a carreira política, mas que desapareceu em ação na Segunda Guerra Mundial.
Com tantas tragédias na família, que ao mesmo tempo granjeavam uma grande admiração pelos Kennedy, era natural que o próximo a seguir o caminho político fosse Ted Kennedy, o mais novo dos nove filhos de Joseph Kennedy pai.
Mesmo jovem, Ted Kennedy já passara por problemas. Foi expulso de Harvard por fraudar exames, mas conseguiu voltar e se formar em direito. Se primeiro mandato como senador de Massachusetts foi ocupando a vaga de John, quando este foi eleito presidente.
No momento mostrado no filme, no ano de 1969, Ted Kennedy (Jason Clark) estava num momento especial de sua carreira. Com a lembrança da morte dos dois irmãos ainda muito recente na memória do eleitorado, não havia dúvida para ninguém que ele seria o ocupante da Casa Branca na eleição de 1972.
O clima era de otimismo geral entre os ex-apoiadores do finado Bob, e que já se preparavam para dar o suporte necessário para Ted. Foi nesse espírito que se reuniram para celebrar numa casa de praia na ilha de Chappaquiddick, em 18 de julho de 1969.
Entre as seis moças que participaram da festa estava Mary Jo Kopechne (Kate Mara), uma ex-professora de 28 anos, que participara ativamente da campanha de Bob Kennedy. Também estavam na festa o primo, advogado e “quebra-galhos” de Ted, Joe Gargan (Ed Helms) e o ex-procurador de Massachusets Paul Markham (Jim Gaffigan).
Em um momento, depois de ter bebido como todos, Ted saiu de carro com Mary Jo. Em torno de meia-noite, o carro com os dois caiu de uma ponte. Ted conseguiu sair, enquanto Mary Jo ficou presa no carro, e morreu afogada.
Ao invés de pedir ajuda das autoridades, Ted caminhou até a casa onde estava o grupo e contou o que tinha acontecido a Gargan e Markham. Percebendo a gravidade do ocorrido, os três foram até o local do acidente, mas não conseguiram tirar a jovem de dentro.
Gargan insistiu para que Ted comunicasse o fato à polícia, mas o político optou por sair da ilha sem fazer nada. O acidente foi descoberto horas depois por um pescador que chamou a polícia. Ted só se apresentou quase dez horas depois do acidente.
Embora os roteiristas Taylor Allen e Andrew Logan tenham dito que não queriam fazer um documentário sobre o incidente, o roteiro foi baseado no inquérito de quase mil páginas da Suprema Corte de Massachusets de 1970.
O filme, na verdade, levanta mais perguntas do que respostas. Porque o senador demorou tanto a comunicar o fato à polícia? O que ele e Mary Jo estavam fazendo? Porque não foi feito autópsia no corpo da jovem? Como é que a carteira de motorista de Ted, que estava expirada, miraculosamente ficou válida?
Talvez a pergunta mais forte seja porque a oposição e a imprensa não exploraram mais a fundo este estranho acontecimento? Pensando nos nossos próprios políticos, talvez a resposta seja a velha máxima de São Francisco aplicada à política, “é dando que se recebe”.
O fato é que após o incidente, o mais promissor candidato à Casa Branca cedeu a indicação do partido Democrata para George McGovern, que perdeu para Richard Nixon, que logo depois se envolveu no escândalo de Watergate.
Ted Kennedy foi eleito para sete mandatos como senador de Massachusets, e teve uma carreira tão brilhante que recebeu o apelido de Leão do Senado. Foi um defensor dos direitos humanos, causas liberais, direitos dos imigrantes e controle de armas. Contudo, apenas em 1980 ele tentou a indicação do partido para a presidência, perdendo a vaga para Jimmy Carter, que tentava a reeleição.
“Chappaquiddick” é um filme interessante por levantar um ponto obscuro da recente história americana, embora tenha pecado em não fazer uma contextualização inicial, presumindo talvez que todos os espectadores conheçam bem os fatos que envolvem a família Kennedy. Outro mérito do filme é mostrar que nem tudo é maravilhoso, romântico e perfeito na terra do tio Trump. Assista, discuta e forme sua própria opinião.

Título Original: “Chappaquiddick”

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Coluna Claquete - Série da Semana: "La Trêve"



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Newton Ramalho - colunaclaquete@gmail.com


Série da Semana: “La Trêve”

A cidade dos segredos


Se alguém disser que o resumo de uma minissérie é “houve um assassinato e a polícia investiga para descobrir o culpado”, provavelmente todos pensarão que não tem nada de novo nisso. Bem, na maioria dos casos realmente é, mas em se tratando da minissérie belga “La Trêve”, tudo parece bem diferente do lugar comum.
A história se passa em Heiderfeld, nas Ardennes belgas. Como toda pequena cidade, pouca coisa acontece de diferente, e todo mundo se conhece. Mas, quando um jovem jogador de futebol africano aparece morto, nada mais parece no lugar.
O caso coincide com a chegada do inspetor Yoann Peeters (Yoann Blanc) à cidade. Ele já habitara ali quando adolescente, e resolveu voltar após a morte de sua esposa, e de uma desastrosa operação policial sob seu comando em Bruxelas.
Assumindo imediatamente as rédeas do caso, Yoann choca seus pares com suas maneiras um tanto agressivas, principalmente o jovem inspetor Sebastian Drummer (Guillaume Kerbusch). Drummer, assim como o chefe da policia local, Rudy Geeraerts (Jean-Henri Compere), conhecem todos da cidade e os consideram incapazes de cometer um crime.
Mas, logo se comprova que a morte do jovem Driss Assani (Jérémy Zagba) não foi suicídio, como se pensava, mas um assassinato. Mais que isso, À medida que a investigação prossegue, mais coisas estranhas vão sendo acrescentadas na conta dos insuspeitos cidadãos.
Naquela cidade onde aparentemente nada acontecia, descobriu-se reuniões sado masoquistas, jogos de campeonato comprados pela máfia chinesa, orgias repletas de drogas ilícitas, culto ao nazismo, relacionamentos incestuosos, etc..
Em meio a tudo isso, Peeters procura manter a sanidade mental, bastante abalada por problemas do passado e uso de drogas, tendo a ajuda da filha Camille (Sophie Breyer) e da antiga namorada Inès Buisson (Anne Coesens).
A cidade vive a expectativa da construção de uma barragem que irá inundar boa parte da região. Este projeto é a menina dos olhos da prefeita Brigitte Fischer (Catherine Salee), mãe de Zoé (Sophie Marechal) e Kevin (Thomas Mustin), e amante do policial Geeraerts.
O aspecto mais interessante de “La Trêve” é que parece não haver inocentes. Todos tem algo sujo a esconder, e também tem alguma ligação com a estranha morte do jovem Driss.
A condução da história é feita de forma bem interessante, com depoimentos de Yoann a uma psiquiatra (Jasmina Douieb), que tenta descobrir os fatos que aconteceram na cidade, com a participação direta do policial. Outro aspecto curioso da série é que a cena inicial de cada episódio é um sonho envolvendo um personagem, mas sempre com a participação do jovem assassinado.
O elenco é constituído de atores jovens e maduros, a maioria belga e pouco conhecidos fora da Europa. A direção da série é de Matthieu Donck, que também participou da criação do roteiro, ao lado de Stéphane Bergmans e Benjamin D’Aoust. Segundo Donck, a ideia da série veio de querer fazer cinema na televisão e escrever o seriado que eles sonhavam de ver. Já existe uma segunda temporada em produção.
“La Trêve” é um produto diferenciado, seja pela abordagem do tema, seja pela escolha dos atores e personagens. Por isso mesmo, é uma opção interessante, não apenas pela história, como também pela oportunidade de conferir uma produção belga, pouco distribuída nas terras tupiniquins. A série está disponível na Netflix brasileira.

Título Original: “La Trêve”