terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Coluna Claquete - Filme da Semana: "Três Segundos"


O jogo que acabou três vezes


A única coisa boa da idade é que temos a oportunidade – nem sempre aproveitada – de ser testemunha de momentos históricos. Um destes momentos, que tive a chance de assistir pela TV foi a final de basquete dos jogos olímpicos de Munique, em 1972. Esse evento, tão interessante e único, foi tema de um belo filme russo, “Três Segundos” (RUS, “Dvizhenie vverkh”, 2017), feito quase meio século depois.

Esta Olimpíada foi uma das mais tumultuadas da História. Em plena Guerra Fria, era uma das poucas oportunidades para soviéticos e assemelhados desafiarem os americanos e demais países ocidentais sem envolver armas e exércitos.

Contudo, nessa mesma época fervilhavam muitos movimentos das mais diferentes ideologias, inclusive de palestinos, que buscavam o direito a uma pátria, e praticavam sequestros e atentados. Em Munique, a facção Setembro Negro invadiu o alojamento de Israel e fez inúmeros reféns. Por despreparo da polícia alemã, o saldo final foi cinco terroristas, onze atletas israelenses e um policial mortos.

Mas, embora algo seja mostrado neste filme, o foco principal foi a atuação da seleção de basquete da União Soviética, que embora tivesse muitos talentos e chegasse a ser campeã da Europa, não podia ser comparada a nenhuma equipe americana. Foi com um grupo pouco experiente e com diferenças regionais acirradas que o técnico Vladimir Garanzhin (Vladimir Mashkov) precisou trabalhar para as Olimpíadas.

Além das dificuldades com a equipe, Garanzhin tem seus próprios problemas, com um filho necessitando uma cirurgia, e toda a pesada burocracia da União Soviética atrapalhando seus planos. Ganhando aos poucos a confiança de seus comandados, o técnico consegue montar uma equipe forte, mas fortemente lastreada nos talentos pessoais de alguns jogadores, em especial Sergey Belov (Kirill Zaytsev). Ele logo percebe que precisarão ir à fonte do basquete, no próprio território americano, para conhecer mais sobre o esporte.

A construção da história é interessante, embora tenha uma atmosfera de dramalhão bem ao estilo russo, embora não atrapalhe o resultado final do filme. Boa parte das duas horas e treze minutos do filme é dedicado à construção da equipe e sua preparação para a Olimpíada. Uma edição mais enxuta traria um ritmo mais dinâmico ao filme, mas talvez desagradasse seu público-alvo.

O ponto alto do filme é mesmo a partida final contra a equipe americana. Naquela época, atletas profissionais não podiam competir numa Olimpíada, então todos os jogadores americanos vinham da liga universitária, que é o acesso natural para a liga profissional. Mesmo assim, as seleções americanas eram imbatíveis, nunca tendo perdido uma partida, daí o tamanho do desafio que os soviéticos tinham pela frente.

A partida final é mostrada quase em tempo real, empolgando mesmo quem nunca ouviu falar dessa partida. Mais emocionante ainda foi o final – os finais, na verdade – já que erros da arbitragem forçaram a repetição dos três segundos do título.

O filme é bem feito, com uma ótima ambientação de época, e traz uma visão crítica interessante da antiga União Soviética vista da ótica dos russos de hoje. Os atores, a maioria jovem, atua muito bem e dá muita vida ao filme.

Tem um ponto do filme que irá irritar um pouco os brasileiros. Ao mostrar a Copa Intercontinental de 1972, realizada em São Paulo, a imagem é de uma cidade à beira-mar, e o gigantesco ginásio do Ibirapuera foi reduzido a uma quadra de condomínio. Será que os realizadores do filme não tinham ideia de que São Paulo fica 80 km distante do litoral, e que o ginásio do Ibirapuera comporta folgadamente dez mil espectadores? Além disso, o uniforme da seleção brasileira traz um amarelo bem mais escuro, e o jogo com os soviéticos é uma verdadeira batalha campal.

“Três Segundos” é um filme interessante para se ver, principalmente pela diferença do padrão hollywoodiano a que estamos acostumados. Mais interessante ainda é conhecer um evento real com um nível de detalhe poucas vezes mostrado antes. Durante a exibição dos créditos finais são mostrados os momentos finais do jogo real, com imagens da televisão da época.


Título original: “Dvizhenie vverkh”

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Coluna Claquete - Artigo: O arquiteto do mal


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Newton Ramalho - colunaclaquete@gmail.com



Artigo: O arquiteto do mal


O recente processo eleitoral brasileiro parece ter mergulhado boa parte da população no mais absoluto obscurantismo, levando a pensar que essas pessoa nunca estudaram História, nem tem consciência de que estão flertando com um perigoso movimento autoritário.
Claro que para muitos isso não passa de bazófias de campanha, fanfarronices sem nenhuma intenção de serem executadas. Mas, a História demonstra que, embora monstros como Hitler sejam raros, são inúmeros os seguidores que interpretam e executam seus mais loucos desejos e proposições. Ou seja, são pessoas comuns que cometem atos monstruosos.
Um destes personagens foi Otto Adolf Eichmann, um tenente-coronel das SS designado para gerir a logística das deportações de massa dos judeus para os guetos e campos de extermínio. Ele pesquisou maneiras práticas, econômicas e eficazes de executar judeus, ciganos, homossexuais e outros “inimigos do estado alemão”.
Depois de testar o fuzilamento e asfixia dos prisioneiros em caminhões com os gases do escapamento, foi adotado o uso do gás Zyklon-B, e criado toda uma sistematização para o extermínio em massa em inúmeros campos como Dachau, Treblinka, Auschwitz-Birkenau e muitos outros.
Eichmann era sempre muito cuidadoso em evitar rastros sobre seus atos, que pudessem incriminá-lo no futuro. Como muitos outros oficiais alemães, saiu da Alemanha após o final do conflito usando documentos falsos, e refugiou-se na Argentina, país que tinha se mantido neutro durante a guerra.
Em 1960, Eichmann foi localizado pelo Mossad, o serviço secreto israelense. Numa operação audaciosa, um grupo de agentes sequestrou o alemão e conduziu para Israel. Ali foi submetido a um julgamento conturbado, que teve repercussão mundial. Condenado à morte, ele foi enforcado em 01 de junho de 1962.
Muitos se perguntam o porquê do destaque da atuação de Eichmann, um oficial de média patente. Mas, além de sua atuação de destaque na execução do Holocausto, Eichmann era um homem extremamente frio e calculista, que resistiu até o final em admitir sua culpa. Seu julgamento, entretanto, permitiu dar visibilidade aos horrores do Holocausto, que ninguém queria investigar, nem mesmo os próprios judeus. Algo parecido com a atitude que nós temos com relação aos desmandos da nossa ditadura.
Existem três ótimos filmes sobre o assunto, e cada um traz uma abordagem diferente. O mais recente é “Operação Final” (“Operation Finale”, EUA, 2018), onde Ben Kingsley vive o oficial alemão. Este filme reconta a operação feita pelo Mossad para sequestrar Eichmann na Argentina e levá-lo para Israel. O filme é romantizado com elementos de ação para torná-lo mais agradável ao grande público.
O segundo filme, “The Eichmann Show” (EUA, 2015), trata da cobertura do julgamento de Eichmann em Israel. Submetidos a uma imensa pressão, tanto pela população judaica, que não entendia porque precisava de um julgamento, como pelos nazistas remanescentes, os jornalistas Milton Fruchtman (Martin Freeman) e Leo Hurwitz (Anthony LaPaglia) fazem a cobertura do processo, que se tornou o primeiro julgamento do mundo com divulgação mundial. O filme ficou bastante enriquecido com imagens reais tanto do julgamento quanto dos campos de extermínio.
O terceiro filme, “A Solução Final” (“Eichmann”, EUA, 2007), mostra o período entre o sequestro e o julgamento. Através da ótica do capitão de polícia Avner Less (Troy Garit), o filme mostra os interrogatórios conduzidos pelo policial com Eichmann (Thomas Krestschmann), devassando várias etapas da vida do alemão e suas inúmeras atrocidades.
Com frieza e cinismo, Eichmann desafia Avner num jogo psicológico em que ele parece ter domínio absoluto. Submetido à tremenda pressão da opinião pública israelense e mundial, Avner é o único que tem contato direto com o alemão, e tenta de todas as maneiras levá-lo à admissão de culpa pelos seus crimes.
Estes três filmes permitem uma visão de um homem comum dotado de poderes que o levaram a cometer atos inomináveis, movido simplesmente pela desculpa da hierarquia e de atendimento aos desejos do líder supremo. Será que já não estamos vendo aqui no Brasil indícios de atitudes semelhantes, mesmo antes da definição das eleições?
Recomendo a todos que assistam estes três filmes, para que nos lembrem do que o ser humano é capaz, principalmente com a banalização do mal, fenômeno percebido pela filósofa e escritora Hannah Arendt, ela mesma uma sobrevivente de campos de concentração, e que atuou como jornalista na cobertura do julgamento de Eichmann.


sábado, 1 de setembro de 2018

oluna Claquete - Filme recomendado: “Dr. Fantástico”



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Newton Ramalho - claquete@mail.com



Filme recomendado: “Dr. Fantástico”



Como eu aprendi a deixar de me preocupar e amar a Bomba


Não há limites para a sede de poder do homem, e em nome da paz nascem mais e mais guerras. Como é mais fácil iniciar uma do que termina-la, sempre fica a preocupação de onde tudo isso irá levar. Num mundo cada vez mais preenchido com Trumps e trumpanaros, tudo parece repetir-se continuamente. Um filme dos anos 60, que retrata magnificamente isso, é “Dr. Fantástico” (“Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb”,EUA,1964), uma das obras-primas de Stanley Kubrick.
O filme é um produto da Era da Guerra Fria, feito em 1963, em plena corrida armamentista, onde se via um comunista comedor de criancinhas debaixo de cada  cama. Homem de visão não-engajada, e crítico feroz dos fanatismos, Kubrick conseguiu passar para as telas a paranóia existente e o risco que a humanidade corria. Infelizmente, as lições não parecem ter servido, pois os líderes mundiais continuam repetindo os mesmos erros.  
“Dr. Fantástico” é baseado num livro intitulado “Red Alert”, que imagina as duas  primeiras e decisivas horas de uma guerra nuclear. Outro filme da época, “Limite de Segurança” (“Fail Safe”, EUA, 1964) de Sidney Lumet, com Henry Fonda e Walther Matthaus, usou o mesmo tema. Mas, enquanto Lumet mostrava a história de uma forma dramática, Kubrick direcionou seu filme para a comédia. Ambos os filmes são geniais, não perderam a atualidade, e, para o prazer dos cinéfilos, estão disponíveis em várias mídias.
Os dois filmes exploram o mesmo tema, o início de uma guerra nuclear devido a fatores imprevistos. Em “Dr. Fantástico”, um general ensandecido que acreditava que o tratamento da água encanada era um processo de dominação comunista, ordena um ataque nuclear à Rússia. Ironicamente, o lema deste grupo aéreo é "Paz é a nossa profissão”.
Para complicar tudo, os russos tinham desenvolvido a "arma do juízo final" que seria acionada automaticamente por uma explosão nuclear, destruindo a vida na superfície da Terra durante noventa e três anos.
Todos os militares americanos são retratados impiedosamente por Kubrick: o brigadeiro Ripper (Sterling Hayden), que ordena o ataque e enfrenta seus colegas com uma metralhadora ponto cinqüenta, no estilo que ficaria famoso em “Rambo II”, anos mais tarde; o ultra-paranóico-radical General "Buck" Turgidson (George C. Scott, numa antecipação do seu mais famoso filme – “Patton”) que quer a todo custo aproveitar o incidente e completar a guerra; Colonel "Bat" Guano (Keena Wynn), que após invadir o quartel e matar vários soldados, não quer danificar uma máquina de Coca-Cola, porque é propriedade privada; Major T.J. "King" Kong (Slim Pickens) o fanático piloto do bombardeio, que é o protagonista da antológica "cavalgada" na bomba nuclear.
O elenco todo está inspiradíssimo, a começar por Peter Sellers, que protagoniza três personagens diferentes: o adido inglês, capitão Mandrake, único militar com algum bom senso no filme, o presidente dos Estados Unidos, e, o papel-título do misterioso Dr. Strangelove. Este último, quando aparece na parte final do filme, é uma acusação direta de fascismo aos militaristas de plantão, chamando o presidente de Mein Fueher, e, fazendo a saudação nazista, por exemplo. Curiosamente, Sellers, que estrelou muitas comédias, entre as quais, “Pantera Cor de Rosa”, faz os papéis mais contidos do filme.
Dos principais atores do filme, o único que ainda está vivo é James Earl Jones, em seu filme de estreia no cinema. Jones ficou mais conhecido como o chefe da CIA nos filmes “Caçada ao Outubro Vermelho”, “Jogos Patrióticos”, e “Perigo Real e Imediato”. Mas, poucos se lembram que ele foi quem dublou o personagem Darth Vader na primeira trilogia de Star Wars, e voltaria ao papel em  “Star Wars: Episódio III - A Vingança dos Sith” (2005) e “Rogue One: Uma História Star Wars” (2016).
Como este é um filme que interessa os colecionadores, saíram edições caprichadas em DVD e Blu-Ray. Uma coisa curiosa é o formato de tela, Full Screen (1,66:1), que corresponde ao 16mm do cinema, de forma que não há perda de imagem. Diz a lenda que Kubrick preferia esse formato. O áudio traz o som mono original e também em 5.1 TrueHD e o filme é preto e branco. Tudo isso que parece desvantajoso em relação aos filmes atuais mas faz parte de um conjunto harmônico da obra de Kubrick.
É como se estivéssemos assistindo a obra original, sem os risquinhos na tela. A imagem, aliás, está primorosa. Os efeitos especiais são pobres, mas convincentes, para a época. Falando em efeitos especiais, Kubrick encantaria o mundo, alguns anos depois, com “2001, uma Odisséia no Espaço”.
O Blu-Ray traz os mesmos extras da edição americana, incluindo um documentário sobre a vida e obra de Kubrick, um Making Of de Doutor Fantástico, documentários sobre a Guerra Fria, sobre Peter Sellers, e até uma entrevista com Robert McNamara, que foi Secretário de Defesa dos Estados Unidos de 1961 a 1968. Embora o filme tenha legendas em português, os extras só as tem em inglês e espanhol.
“Dr. Fantástico” é um filme que vale à pena ser assistido, e, discutido, com os amigos, filhos, vizinhos, cachorro e papagaio. É importante observar que os que tem o poder de apertar botões importantes, muitas vezes tomam as decisões pelas motivações mais pessoais e absurdas, sem se preocupar com as conseqüências para milhões de cidadãos. E, para tornar o programa mais interessante, que tal uma sessão tripla com “Limite de Segurança” e “A Soma de Todos os Medos”?

Título Original: “Dr. Strangelove or: How I Learned to Stop Worrying and Love the Bomb”