quinta-feira, 26 de julho de 2018

Coluna Claquete - Série da Semana: "A Ponte"



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Newton Ramalho - colunaclaquete@gmail.com


Série da Semana: “A Ponte”

A ponte da vingança



Nunca fui entusiasta de seriados, como a maioria dos meus amigos, mas a primeira que realmente me deixou entusiasmado foi a produção sueco-dinamarquesa “A Ponte” (“Bron/Broen”, SUE/DIN, 2011). Esta série não surpreendeu apenas a mim, mas além de granjear admiradores no mundo todo, gerou três adaptações, uma franco-inglesa, outra americano-mexicana, e uma terceira austro-alemã.
E o que torna essa série diferente de tantas outras? Nos primeiros minutos já somos surpreendidos com um inusitado caso policial que acontece na magnífica ponte que une os dois países. No meio da noite, exatamente no local onde fica a fronteira entre a Suécia e a Dinamarca, é encontrado o corpo de uma pessoa assassinada.
Como o corpo fora depositado exatamente na fronteira, as polícias dos dois países são convocadas, e acontece um jogo de empurra sobre quem deveria assumir o caso. Do lado sueco, a inspetora Saga Norén (Sofia Helin) não quer abrir mão do caso, o que parece muito conveniente para o dinamarquês Martin (Kim Bodnia).
Mas, quando o corpo é levantado, os técnicos percebem que se tratava de pessoas diferentes, que haviam sido cortadas ao meio. Ao investigar mais a fundo, descobrem que as vítimas eram oriundas dos dois países. Por conta disso, as duas polícias decidem fazer a investigação em conjunto.
O ritmo é mais lento que as costumeiras séries americanas, pois a história é meticulosamente desenvolvida ao longo de dez episódios, e a cada descoberta vão sendo descobertas novas pistas e acontecimentos que envolvem o passado de Martin e também a ponte que dá nome à série.
Apesar da ótima atuação de Bodnia, quem dá vida à série é a personagem de Sofia Helin. A policial Saga tem características de autismo que a levam a tomar atitudes pouco simpáticas ou mesmo muito estranhas, embora nada disso interfira com sua capacidade de elucidar crimes. Vários fatos de seu passado virão à tona ao longo das quatro temporadas da série, lançadas em 2011, 2013, 2015 e 2018, respectivamente.
Mas, não é apenas a história contada magnificamente que mantém a atenção do espectador. A música e a fotografia são excelentes, e a cena de abertura dos episódios é espetacular, tornando a dita ponte um personagem adicional da série. Aliás, falando-se em personagens, o que torna a história ainda mais crível é a ausências dos “personagens perfeitos”. Todos na série tem qualidades e defeitos, como qualquer ser humano. Um fato curioso são as cicatrizes que a atriz Sofia Helin tem no rosto, fato que seria inadmissível em Hollywood, ou mesmo nas terras tupiniquins.
O sucesso da série suscitou três remakes: “A Ponte” (“The Bridge”), com a ação acontecendo na fronteira entre Estados Unidos e México, “O Túnel” (“The Tunnel”), onde o crime acontece no Eurotúnel, que liga França e Inglaterra, e a recente “Der Pass”, ainda sem título em português, que acontece nos Alpes, entre a Alemanha e Áustria.
A primeira temporada das versões anglo-francesa e americano-mexicana seguiram a história original, com adaptações para os ambientes e problemas locais, mas as outras temporadas seguiram histórias próprias.
O sucesso da versão nórdica despertou a atenção do mundo para as excelentes séries suecas, dinamarquesas, norueguesas, finlandesas e até da remota Islândia, o que sempre é uma oportunidade de fugir da mesmice das séries americanas.
  

Título Original: “Bron/Broen”

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Coluna Claquete - Filme da Semana: "O Caminho Para Casa"


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Newton Ramalho Junior


Filme da Semana: "O Caminho Para Casa"



Coração de porcelana

Já vão longe os tempos em que as produções orientais se limitavam aos filmes de kung-fu vindos de Hong Kong. Muitos filmes que tem chegado do Japão, Taiwan, Vietnã, China e Coréia do Sul são de uma qualidade de fazer inveja a Hollywood. São pérolas como o vietnamita "Três Estações", o coreano “A Criada”, e os chineses "Nenhum a Menos" e "Último Entardecer". A eles vem se juntar "Caminho Para Casa" (“Wo de fu qin mu qin”, CHI, 1999), de Yimou Zhang, que também dirigiu "O Clã das Adagas Voadoras" e "A Grande Muralha".
A história de filme é de uma simplicidade assustadora: um jovem retorna para a sua aldeia natal ao receber a notícia de que o pai falecera. Este era o único professor da aldeia, onde ensinara por quarenta anos. Ao chegar em casa, o rapaz sabe que a mãe quer que seja cumprida uma antiga tradição da região: o morto deve ser conduzido a pé para que não se perca a caminho de casa.
Nesse retorno a seu local de origem, o jovem revive a história de amor dos seus pais. No lugar e na época em que viviam, onde todos os casamentos eram negociados pelas famílias. Di (Ziyi Zhang), jovem inculta do interior, já recusara vários pretendentes. Quando o jovem e urbano Changyu (Hao Zheng) chega para ser o professor local, ela se apaixona perdidamente por ele.
Indiferente a esse abismo cultural que os separava, Di chega quase a morrer - literalmente - devido a esse amor. Até aí, nada que já não tenha sido visto mil vezes nas telas de cinema.
A diferença deste filme é o tratamento delicado que é dado ao relacionamento dos dois jovens. Diferente de nossas novelas, onde no primeiro encontro os jovens já vão para a cama, o comportamento dos jovens chineses pode até parecer ridiculamente ingênuo. Não é, pelo menos para quem conseguir partilhar da inocência de um primeiro amor.
O filme é belo, seja pelas paisagens de tirar o fôlego, pela música suave e enternecedora, seja pelo romance delicado e dolorosamente real. Não é sem razão que sentimos a dor de Di ao partir-se o vaso de porcelana que continha as iguarias para seu amado. Com ele se partia também o coração da moça e todos os seus sonhos mais lindos.
Nesse universo ainda convive a mãe que perdera a visão de tanto chorar a perda do marido, mas que é capaz de enxergar o que os outros não viam. É dela a iniciativa de mandar consertar a tigela partida, de valor inestimável para a garota.
Na busca para satisfazer a vontade da mãe, o filho do professor termina encontrando muito mais do que procurava. O valor do pai, a amizade e apreço de pessoas desconhecidas ou há muito esquecidas, bem como as próprias raízes que pensara ter cortado. A volta para casa não fora só do pai. O romance, a cultura e a tradição o conduzem à derradeira homenagem ao velho professor.
Este filme, que não foi lançado nos Estados Unidos em vídeo, teve uma excelente versão brasileira em DVD. O formato original do cinema permite apreciar a belíssima fotografia do filme, e o áudio em mandarim permite ouvir a curiosa musicalidade da língua chinesa. Infelizmente não existem extras, mas este é um caso em que o conteúdo do filme já está muito bom. A trilha sonora é um espetáculo à parte, com melodias suaves e bem integradas às imagens.
A atriz que personifica a Di jovem é Ziyi Zhang, praticamente debutando no cinema, e que depois faria inúmeros filmes de sucesso, como "O Tigre e o Dragão", “Herói”, “O Clã das Adagas Voadoras”. “Memórias de uma Gueixa”, e o recente “O Paradoxo Cloverfield”.
Este filme foi vencedor do Leão de Ouro do Festival de Berlim e do Prêmio de Audiência do Festival de Sunance, além de mais catorze prêmios e seis indicações.
“O Caminho Para Casa”, além de ser um filme sensível e agradável aos sentidos, retrata a China rural em uma época muito distante da moderna potência atual, mas que lembra que o amor é universal e transcende gerações. Recomendo a todos.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

Coluna Claquete - Série da Semana: "O Bosque"



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Newton Ramalho - colunaclaquete@gmail.com


Série da Semana: “O Bosque”

O bosque das almas sombrias


Meus amigos sabem que eu não gosto de séries, principalmente as americanas, pois a imensa maioria é repetitiva, previsível e sem ousadia, bem diferente das suas correspondentes europeias. Um bom exemplo de como deve ser uma série, no caso, uma minissérie, é a francesa “O Bosque” (“La Forêt”, FRA, 2017), mais uma produção Netflix.
Dividida em seis episódios, a minissérie conta a história ocorrida em uma pequena cidade francesa na região de Ardennes. Como qualquer cidadezinha do mundo, é um lugar onde todos se conhecem e sabem da vida do outro. Por isso todos ficam chocados quando uma adolescente desaparece sem deixar vestígios.
O evento coincide com a chegada do novo chefe da polícia local, capitão Gaspard Decker (Samuel Labarthe). Depois de trabalhar muitos anos no exterior, Decker volta para a França com a filha Lola (Mélusine Loveniers), após a morte da esposa.
Apesar de sua longa experiência policial, Decker fica surpreso com a forma de agir dos policiais locais, principalmente sua segunda em comando, tenente Virginie Musso (Suzanne Clément). Nascida na cidade, e vivendo ali há muito tempo, Musso conhece tudo e todos, e toma suas decisões baseado nesse conhecimento, algumas vezes desobedecendo as normas estabelecidas.
A jovem desaparecida, Jennifer (Isis Guillaume), era muito amiga de Maya (Martha Canga Antonio), a filha adotiva de Musso, e de Océane (Ines Bally), filha de Thierry Rouget (Patrick Ridemont), um costumeiro criador de problemas. Como as três meninas eram muito próximas, tanto a polícia quanto a professora Eve Mendel (Alexia Barlier) tentam obter todas as informações possíveis.
O problema é que a moça parece ter evaporado. As buscas se concentram no bosque que circunda a cidade, mas quem termina encontrando o corpo sem vida de Jennifer é Eve. As pessoas começam a lembrar que casos semelhantes ocorreram no passado, e a própria Eve foi encontrada aos seis anos de idade, sendo adotada pelo médico local, Abraham (Christian Crahay).
Sentindo-se um peixe fora d’água neste ambiente, Decker procura impor sua autoridade usando sua experiência e investigando todas as pistas possíveis. A situação se complica quando Maya e Océane também desaparecem.
Esta minissérie, além de trazer uma visão diferente das costumeiras histórias policiais, foge do lugar-comum em muitos aspectos, a começar pelo ambiente pouco glamouroso de uma cidade do interior, bem diferente das elegantes ruas de Paris.
Outro aspecto interessante, é que, contrário ao que se vê nos enlatados americanos, todos os personagens tem qualidades e defeitos, coisas a esconder, e até transgressões sérias. Ou seja, parecem pessoas normais, e não estereótipos ambulantes.
A história também traz um aspecto místico envolvendo o bosque que dá o título à série, quase sempre na pessoa da professora Eve. Única sobrevivente de um misterioso e trágico acontecimento nunca esclarecido, ela mantém uma conexão com a floresta que nem mesmo ela consegue explicar.
“O Bosque” é mais um dos muitos – e bons – produtos que a Netflix está trazendo ao mercado, desafiando os tradicionais estúdios e forçando-os a sair de sua cômoda fabricação de enlatados. Assim como “A Louva-a-deus”, “A Casa de Papel”, “Quatro Estações em Havana” e muitos outros, há um movimento de renovação na indústria que só beneficia o espectador.

Título Original: “La Forêt”